pindorama

"Quando for depois
E eu não estiver aqui
Já deixo dito que sim,
Embora as coisas do não
Possam trocar as palavras,
Como trocadas as asas
Voam pra falsa estação."

(Manduka)

"Pos isso somos quem somos
Estrelas de um só momento
Mas cujo brilho ameaça
A ordem do firmamento"

(Manduka)

Minha foto
Nome: paulo thiago
Local: Rio de Janeiro, rio de janeiro, Brazil

Jornalista e antropólogo

Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007

Novo endereço

Amigos, agora que consegui recuperar o Pindorama original, aproveito para avisá-los que os novos posts estão sendo feitos no Pindorama 2:

http://ipaco5.blogspot.com

Confiram também as Mariposas:

http://pthiago.blogspot.com

Domingo, Dezembro 31, 2006

Mudança de endereço

Queridos amigos, este blog deu pau e todas as tentativas para normalizar as coisas não surtiram efeito, de modo que estou mudando de endereço para o Pindorama 2:

http://ipaco5.blogspot.com

É só acrescentar o número 5 depois de ipaco e um novo universo se abrirá. Não percam o sensacional post sobre a invasão de Botafogo por novos condomínios...

Vale conferir também o blog das mariposas:

http://pthiago.blogspot.com

Terça-feira, Dezembro 19, 2006

Blog dando pau

Amigos deste Pindorama, o blog vem dando pau sistematicamente. Não está permitindo o post de comentários e, em alguns computadores, o site aparece todo destrambelhado. Já escrevi para os caras do webmaster, mas até agora necas... Estou tentando resolver, mas é possível que tenha que trocar o formato... enfim, espero que tudo volte ao normal em breve... aguardem notícias.

Segunda-feira, Dezembro 11, 2006

Morreu um sanguinário

Morreu Pinochet.

O mundo se tornou um lugar melhor.

Domingo, Dezembro 10, 2006

Literatura e samba no Bip Bip


A bela figura do Alfredinho, uma das pessoas mais dignas que tive o privilégio de conhecer

Ontem foi um dia em que o samba e a literatura se encontraram mais uma vez. No exíguo espaço do Bip Bip, o minúsculo boteco comandado pela figura genial do Alfredinho, meu amigo Marcelo Moutinho fez o segundo lançamento de seu livro Somos todos iguais nesta noite. Por coincidência, no mesmo sábado, o caderno Prosa & Verso, do Globo, publicou uma resenha de José Castello sobre o livro, na qual o escritor e crítico literário coloca a obra de Moutinho em contraposição a uma certa tendência que vem dominando o cenário de novos escritores. Quem conhece o Castello sabe que ele não faz elogios por fazer. Ele diz exatamente o que pensa sobre a obra que resenha.


Na primeira mesa, Marcelo Moutinho autografou os livros, ao lado de Falvinha e Alexandre Medeiros, à direita. No fundo, em pé de barba, Alfredinho.

Vejam, meus amigos, o que Castello diz de Moutinho em certo trecho da resenha: “Não é comum um jovem escritor que escreva com tanta confiança e serenidade. Há nos relatos de Marcelo Moutinho, alguns tão fugidios que se aproximam da poesia, uma delicadeza, uma benigna desesperança que raramente encontramos em escritores formados.” Ainda não li o livro (só ontem consegui minha edição), mas estou com pressa de entrar nesse universo. Pelo que conheço de meu amigo, sei que será um passeio intenso.


A roda do Bip Bip começando a esquentar

Mas vamos ao samba. O Bip Bip, para quem não sabe, é um pequeno templo dedicado à MPB. Localizado em Copacabana, é uma das boas rodas da zona Sul. O samba rola aos domingos (teças tem chorinho e quintas, bossa nova), mas ontem, sendo o lançamento do livro de Moutinho, Alfredinho convocou a rapaziada e o samba fluiu como há muito eu não via. A parte da venda dos livros que iria para a editora, a Rocco, foi cedida para o projeto social do Alfredinho de servir uma ceia para a população de rua das imediações.


A rapaziada do Bip mandando ver. Na parede, os quadros que contam a história do samba e do Botafogo

Vários amigos estavam por lá, entre eles, Flavinha (preocupada em colocar água no feijão), Alexandre Medeiros, Luizinho Macedo, Chico Aguiar, Jal, Bráulio, a antropóloga francesa Caterine Reginensi, Cecilia Gianetti e o poeta Henrique Rodrigues, de quem também comprei o livro recém-lançado, A musa diluída, que traz versos como estes do poema Limpeza:

“tirar da vida o cerne
manchar-se de clareza
sujar o limpo e o belo”

Coisa séria. E, aliás, aproveito aqui para recomendar o festival Poesia Voa, organizado pelo poeta Mano Mello, que começou hoje no Circo Voador e vai rolar até terça-feira, com recitais, projeção de filmes e vários shows.


Mas uma da rapaziada do Bip mandando ver

Uma imagem me tocou: uma bela jovem entrando no Bip, caminhando em minha direção com um copinho de cachaça na mão, espremida entre os músicos e as pessoas que ouviam em pé, contra a parede oposta à mesa dos instrumentos. Um desfile.


Alfredinho e sua taça de vinho tinto: ordens médicas...

No fim, devo confessar para horror de alguns, fomos todos ao Belmonte Copa para forrar o estômago.

Domingo, Dezembro 03, 2006

Trem do samba


Roda de samba do Bip-Bip em Osvaldo Cruz, só faltou o Alfredinho

Ontem circulou o trem do samba, da Central do Brasil a Osvaldo Cruz. Uma festa que é muito pouco comentada pela mídia, mas que reúne uma multidão e um clima de alegria muito especial. É um carnaval. Nos últimos anos, ocorreu durante a semana, ontem foi num sábado de sol e lua quase cheia, ou seja tempo firme, dia de celebração. Rodas de samba em vários pontos, com várias atrações. Fiquei na do Bip-Bip, com Marcelo Moutinho, Flavinha e outros amigos. Uma das coisas que me chamou a atenção, ao desembarcar em Osvaldo Cruz, foi o povo no alto da passarela, esperando o pessoal do trem chegar. Uma espécie de saudação muito bonita. Depois, uma saideira no Getulio, para forrar o estômago. Pena que o Baiano já tinha ido embora.


No caminho fui encontrando vários amigos: Marcelo, Chico, Moutinho, Flá e um visitante de Curitiba (ah! minha memória pra nomes...)


Botequim e samba, uma boa combinação, apesar de muito dono de boteco não gostar de batucada nas mesas...

Quinta-feira, Novembro 30, 2006

Todo el estilo carioca

Amigos, saiu crítica sobre meu livro no jornal argentino La Prensa:


Capa da edição em espanhol. A versão brasileira deve sair em meados de dezembro... a foto foi feita pelo Reto Guntli, no escritório do Oscar Niemeyer, em Copacabana

"En el libro Vivir Río con magnificas imagenes y texto de Paulo Thiago de Mello

Todo el estilo carioca

Los fotógrafos Reto Guntli y Agi Simões han logrado captar el alma de la antigua capital brasileña en un espléndido volumen recién editado por Larrivière. Un medio para recordar o descubrir la "cidade maravilhosa".

Hay millones de postales de Río de Janeiro. Pero ninguna es capaz de captar a esa ciudad -de esa "cidade maravilhosa" de la canción- en su totalidad. Ya sea por su topografía como por la diversidad que encierra, la ciudad brasileña por antonmasia sigue siendo al día de hoy tan abarcativa como insondable.

Con la intención de mostrar esa disparidad que la hace tan original, Paulo Thiago de Mello, a través de los textos, y Reto Guntli y Agi Simões en la fotografía, encararon Vivir Río, un libro que, apoyado en esa urbe tan particular, da una sensación de lo que es, precisamente, vivir en Río de Janeiro, desde la época de la colonia hasta nuestros días.

Ex capital política en tiempos del imperio y luego de la república, Río supo acomodarse a los vaivenes sociales y culturales, encontrando siempre la forma para sobresalir por diferentes motivos.

Bella Guanabara

Arrebatada a los pueblos originarios que habitaban la zona y luego a avanzadas francesas que pretendían colonizar el lugar en el siglo XVI, los portugueses fueron metiéndose en la bahía de Guanabara primero con timidez y luego con pasión, absorbidos por la vitalidad y exhuberancia del entorno.

Geográficamente, Río es indescriptible. Su belleza natural la ubica entre las ciudades más increíbles del planeta, pensada tanto para ser vivida a pleno empezando por el mar que la baña en cientos de playas.

Socialemente, también se impone. Los portugueses, puntales de su colonización, abrieron sus puertos a inmigrantes de todo el mundo, desembarcando oleadas de italianos, españoles, ingleses, alemanes, sirios y muchos más en Brasil. Ellos, sumados a la nutrida población negra que tardíamente, en 1888, consiguió su libertad, originaron una mezcla de costumbres que en Río logró una eclosionó muy particularmente

Todos integrados

Más allá de imponer una cultura sobre otra, la ciudad fue nutriéndose de cada nacionalidad para rendondear su personalidad. Y fue así, que los barrios recibieron la yuxtaposición de culturas.

Tras la migración externa, Río recibió la interna, representadas en miles de campesinos que escaparon de la miseria de los "sertaos" nordestinos y la crueldad de un sistema cuasi feudal, quienes bajaron a las playas cariocas en busca de trabajo cuando la ciudad se convirtió en eje de la avanzada industrial (en competencia con San Pablo).

De esta historia está nutrido Vivir Río, un volumen que se lee con interés, gracias a la prosa tan informativa como llana de Paulo Thiago de Mello, periodista y antropólogo brasileño, redactor del diario O Globo. Pero que lógicamente sirve como apéndice de las imágenes del suizo Reto Guntli y el brasileño Agi Simões.

Buscar el Alma

Lejos de ser un recorrido "pintoresco" por Río de Janeiro — aunque en parte y necesariamente lo sea- los fotógrafos buscaron reflejar no sólo la belleza de la ciudad sino también esa suerte de halo que la caracteriza. ¿Y cómo se logra ese cometido? Los fotógrafos lo encararon a través de tomas de los barrios característicos, que testimonia la idiosincracia de la gente que los ocupa.

Y entonces, además de playas, "postales" típicas, edificios, la lente captó bares, jardines, balcones, casas históricas y casas de diferentes personalidades, negocios de todo tipo, vendedores ambulantes y personajes emblemáticos del "ser" carioca.

El cometido del libro ha sido trazar un dibujo de Río de Janeiro -esa explosión de color y diversidad estética tan difícil de captar en una imagen única-, que gracias a esta obra queda entrañablemente revelado.

Una "guía del visitante", con pormenorizada información, termina por redondear el sentido de Vivir Río.


Esta é a capa da versão em inglês do livro, que está à venda na Amazon.com...

Segunda-feira, Novembro 27, 2006

Uma dica

Meu amigo André Arruda, fotógrafo de fina estirpe, vem fotografando Copacabana há, pelo menos, duas décadas. Nesse período construiu um acervo fotográfico sobre o bairro maravilhoso por seu olhar pouco convencional, tanto em relação ao bairro como em relação à fotografia em si. Arruda passou pelo Jornal do Brasil e o Globo e hoje é um dos frilas mais requisitados do Rio. Vale a pena conferir esse olhar insólito sobre o bairro que nunca dorme, que ele imprimiu na exposição Outra Copacabana. A estréia será no dia 4 de dezembro.

Sábado, Novembro 25, 2006

Um aviso



Amigos, estou experimentando uma coisa. Tenho jogado em Pindorama todo tipo de texto e imagem, mas resolvi agora separar um pouco as coisas. Criei o blog Mariposas (link ao lado), onde vcs encontrarão textos de ficção, poemas e imagens (como a ilustração acima, uma manipulação por phososhop de uma foto), quase todos em torno dessa coisa da paixão pela mulher. O nome tem a ver com o livro que está sendo cozido por mim. Aqui, ficarão crônicas, reportagens e ensaios sobre qualquer tema.

Rio Botequim comestível, algumas impressões

Num cenário tipicamente carioca, colado aos Arcos da Lapa, a Casa da Palavra e a Memória Brasil lançaram a sétima edição do Rio Botequim no Circo Voador, na última quarta-feira. Trata-se de uma versão especial, para comer, de autoria do Guilherme Studart. Como havia mencionado num post anterior, intitulado Meu bar é o botequim, o lançamento dessa edição encerra um ciclo de nove anos de participação neste projeto, ao qual eu e meus companheiros de copo e jornada, emprestamos boa parte de nossos fígados.


Segunda saideira foi no Nova Capela, onde muitos dos convidados esticaram

Convidado ao lançamento, cheguei com Mila, Leo Feijó, Luiz e Laura, pisando na arena do Circo devagarinho e desconfiado, como alguém que vai a uma festa sem saber direito se o convite fora para valer, ou teria sido mera formalidade e etiqueta, já que não havia ninguém da turma do velho RB, como Zé Octávio, Soraya, Marceu, Julico, Irriqui, Antonia, Medeiros, Cristina Chacel, Custódio... Mas relaxei assim que encontrei Moacyr Luz e Baiano. Também recebi um abraço de todos os ossos, emocionado, da Martha, um gesto que disse muito e acabei relaxando mais ainda. E fui esbarrando em gente... o velho Chico Rufino, da Adeguinha; seu Aires, do Nova Capela; Kadu, do Braca; o Juca, do Serafim; seu Manoel, do Jobi... de repente, percebi que estava entre amigos. Donos de botecos, garçons, boêmios, vários coleguinhas de jornais, livreiros etc.


Moutinho e Flavinha, com chope em copo de plástico.... tsk, tsk, tsk...

O livro, que dessa vez não foi oferecido aos convidados, vendeu cerca de 500 cópias no lançamento. Segundo apurei com o Nelsinho Vasconcelos, o Guilherme ficou autografando o guia até muito depois de o Circo ter apagado as luzes. Nessa hora, eu já estava fora dali. Passei no Bar Brasil, numa mesa com o Rodrigo, da livraria Folha Seca; Loredano, o desenhista; Moacyr Luz, Kadu, Zé Carlos, do Original de Brás de Pina, entre outros. Uma discussão sobre os méritos do RB, algumas caldeireitas na pressão, e me pirulitei para o Nova Capela, pois não havia comido quase nada na festa.


Moacyr Luz, entre Kadu, do Bracarense, e Antonio, do Belmonte, e o Giba, dono do Bar do Giba, de Sampa

Quanto ao guia em si, achei a pesquisa do Guilherme muito boa, sobretudo as dicas e cuidados que ele recomenda na hora de escolher os pratos citados no livro. Lendo o texto, dá água na boca. Meu reparo se dirige, modestamente, ao trabalho do Christiano Menezes. Como na versão anterior, o trabalho do designer mais uma vez se sobrepôs ao resto do livro. Em muitas partes, a leitura é prejudica pelo excesso de elementos gráficos e não há fotos dos bares mencionados, o que deixa o leitor sem ter uma idéia visual de como é o estabelecimento recomendado.

Acho o Christiano um excelente designer e dono de um estilo que vai se tornando conhecido no meio editorial, mas acho que ainda lhe falta aprender uma certa humildade. Na minha modesta opinião, o texto (e demais elementos informativos, como fotos) não pode ficar subordinado nunca ao desenho. Muitas vezes mais é menos e menos é mais. Não há necessidade de encher as páginas com tantos elementos visuais.


Moacyr e Marcelo Moutinho: a piada era boa

Achei a pesquisa do Guilherme consistente e os bares citados abrangem boa parte da cidade e até fora dela (sempre defendi, nas edições anteriores, a entrada do Caneco Gelado do Mário, mas o argumento era sempre que o guia se limitava ao Rio). Como o enfoque foi na comida, em vez do bar, não coube espaço para alguns pratos menos convencionais, que são preparados em alguns botequins, como buchada de bode, galinha cabidela, leitão à pururuca, codorna recheada etc. Mas ele acertou em ir, digamos, ao convencional: petiscos, sanduíches, sopas, e os pratos: rabada, feijoada, filés, picanhas etc.

Enfim, acho que o guia vale muito à pena.


E no fim, coleguinhas no Nova Capela: Roberta, Juliana e um amigo delas

Terça-feira, Novembro 21, 2006

Amarelo manga*



Gosto de cidades que iluminam suas ruas com cores quentes. Caminhar por seus bulevares, travessas e calçadões na madrugada me deixa sempre num estado intermediário das coisas. Tudo passa a ser um prestes-a-acontecer: o fragmento de tempo que antecede o gesto, mas que já está além da intenção de agir. Uma lacuna entre razão e ação, onde tudo pode acontecer, limbo de todas as possibilidades. São, portanto, instantes de grande ebulição do espírito.

Desconfio que esse hiato, que entre outras coisas me torna um ser mais intenso, é resultado da influência dessa luz, ora amarela ora puxando para o alaranjado, que certas cidades colocam sobre suas calçadas e ruas. Não sei se é a incidência desses raios luminosos agindo sobre o cerebelo ou sei lá que hemisfério de nossa cabeça, mas o tom avermelhado insinuando-se sobre as esquinas tem um quê de assombro, muito pertinente para as almas patafísicas.

Paris, por exemplo, é assim. No inverno, quando o teto de nuvens desce a quase podermos tocá-lo com as pontas dos dedos, seus flocos brancos acabam tingidos pelo calor dessas cores artificiais e tudo se avermelha na noite. Combina com os tintos encorpados e o ar existencialista de seus enfumaçados cafés.

No Rio, infelizmente, seus sucessivos alcaides desde os tempos de Pereira Passos tentam impor contra a natureza magnífica da cidade as travas da razão. Sóbrios e infelizes, estes senhores desprezam a vocação para a alegria que tão naturalmente emerge nestes trópicos. Tudo o que possa contribuir para desviar o homem reto de seu trajeto entre o lar e o trabalho é visto e tratado por eles como nocivo. A boemia é, assim, um desvio perigoso. Daí, as luzes brancas que dominam a cidade.

Mas felizmente há uma honrosa exceção: a Lapa. O bairro, em que Cesar — que não é o de Roma — viu seus empreendimentos iluministas naufragarem, é desde tempos imemoriais iluminado por um amarelo manga que se impõe soberanamente de tal forma, que são suas cores que demarcam os limites físicos e simbólicos de seu território. Você sabe que entrou na Lapa, quando tudo ganha um aspecto alaranjado, especialmente o seu humor.

Seus raios em brasa tornam as silhuetas das almas que por ali flanam na noite efervescente em seres extravagantes; fazem de seus botequins, sinucas, gafieiras e pensões universos paralelos repletos de enredos e mistérios; afia o olhar do gatuno; seduz o incauto com a ilusão de amor devasso nas esquinas: “boa noite, Cinderela!”; e acrescenta densidade aos acordes dos sambas tristes, assim como às tulipas geladas de chope.

Uma cidade não é um simples amontoado de bairros e nem o bairro, um aglomerado de ruas, que algum barão com dinheiro no bolso batizou com o nome do avô. Cada pedaço urbano é construído no dia-a-dia a partir dos sonhos e delírios de seus habitantes e usuários. É por isso que se pode falar de uma alma tijucana, por exemplo; ou de uma decadência de Copacabana; ou que Botafogo é passagem e caminho. Cada lugar tem sua identidade, uma identidade que vai mudando, crescendo, definhando, morrendo, renascendo...

E, ao pensar sobre todas as coisas poderosas que compõem a identidade da Lapa — a boemia, o lugar do encontro e da diversidade etc. —, o que me vem à mente como a mais singular é este sutil amarelo manga que envolve a sua noite.

(*) uma versão menor e experimental desse texto já andou por este Pindorama. Esta versão, quase definitiva, é a mesma que foi enviada ao Alfredo Herkenhoff, para o livro da Lapa, que ele prepara laboriosamente.

Sábado, Novembro 18, 2006

Casos e causos de Rosa

Amigos, estará chegando às livrarias a qualquer momento (o prazo inicial era 13 de novembro, mas até hoje necas) a edição comemorativa dos 50 anos do romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Esse romance, que para ser atravessado precisa ser lido em voz alta, de preferência com o sotaque matuto das Gerais, é uma obra-prima e o Rosa, um dos meus autores preferidos. Em março, o Prosa & Verso, caderno literário do Globo, fez uma edição especial sobre o escritor mineiro, para a qual me coube fazer uma matéria. Ouvi algumas pessoas, entre editores, acadêmicos e amigos e, no fim, consegui reunir para um papo o irmão mais novo do escritor, José Luís Guimarães Rosa, e a filha Agnes.

No meio da entrevista, Zé Luís, com quem ainda converso por telefone, passou mal e teve um surto de amnésia. Ele estava no meio de uma frase sobre o irmão e deu um branco. Fiquei preocupado de que toda aquela coisa de entrevista, fotógrafo, fazendo-o remoer o passado, tivesse detonado algum processo e que sua saúde estivesse em perigo. Mesmo assim, foram quase duas horas de conversa que fui obrigado a cortar porque tinha que voltar para a redação. Depois soube pela Agnes, que o papo sobre o escritor rendeu até altas horas, lá entre eles.

Abaixo reproduzo a matéria, que saiu no Prosa & Verso de março passado:

Casos e Causos

Paulo Thiago de Mello

“No meio literário circula uma anedota acerca do primeiro encontro entre João Guimarães Rosa e o poeta Manoel de Barros, em junho de 1953. Encantado com a forma original como o poeta se expressava, Rosa anotava o que ele dizia sobre os pássaros, a paisagem e a vida pantaneira em sua caderneta de campo. A certa altura, incomodado com aquele anotar constante, Barros passou a dar respostas monossilábicas. Depois que Rosa foi embora, o poeta virou-se para um interlocutor e disse:

— Quando senti que ele me especulava, me empedrei.

Se isto é verdade, não se sabe. Provavelmente não, uma vez que, longe da desconfiança, Manuel de Barros é um fã incondicional do autor de Grande Sertão: Veredas, a quem acompanhou até Corumbá numa viagem de vapor “por impulso de admiração”. Ao escrever certa vez sobre essa viagem, Barros afirmou: “Nossa conversa era desse feitio. Ele inventava coisas de Cordisburgo. Eu inventava coisas do Pantanal.” E acrescentou: “Eu fabricava coragem para puxar uma prosa com aquele João.”

Para Rosa, além do cuidado especial com o texto e a constante leitura, o manancial inspirador de sua literatura brotava de encontros e viagens como essa. No contato com o outro, o confronto com sua personalidade singular gerava “causos” e anedotas. O interesse de Rosa por aquele universo rural chegava a espantar os que o cercavam. Certa feita, Manuelzão — vaqueiro amigo e personagem de suas histórias — disse, assombrado, que o escritor afirmara querer estar dentro de um bovino para captar a essência daquele ruminar.

De acordo com aqueles que conviveram com ele, Rosa era movido por duas forças: a palavra e uma inquietação metafísica, mais mística do que religiosa. Médico de formação, diplomata, fluente em 13 idiomas e extremamente erudito, ele era, apesar de tudo, bastante simples no convívio. Tinha suas manias e cismas e era dado a conversas com qualquer pessoa, em especial com aquelas mais humildes, cujas formas de expressão e universo cognitivo lhe instigavam a imaginação, inspirando-o para suas “estórias”.

— Em 1952, Rosa acompanhou um grupo de vaqueiros que levava uma boiada entre duas fazendas, e anotava absolutamente tudo em suas famosas cadernetas, dos nomes de pássaros às falas dos vaqueiros. Ele fazia perguntas de cunho filosófico àqueles homens simples e anotava cuidadosamente suas respostas — afirma Izabel Aleixo, editora da Nova Fronteira e especialista na obra de Guimarães Rosa. — Ele verdadeiro fascínio por aquele mundo, de onde tirou o material para sua obra.

José Luís Guimarães Rosa, irmão do escritor, lembra, emocionado, sua devoção às palavras:

— A expressão mágica para meu irmão era “ave palavra”. Sempre achei que acima do roteiro de suas histórias estava a palavra. A palavra prevalecia. Há contos em que ele vem descrevendo e, de repente, como que fugindo à narrativa, pára numa vírgula e, entre vírgulas, põe palavras avulsas para prestigiá-las.

José Luís lembra ainda que outro aspecto crucial da vida de Joãozito, como os familiares o chamavam, era sua angústia em relação ao tempo, sobretudo depois que o escritor deparou-se com a previsão que determinava que ele morreria logo após uma grande festa em sua homenagem. Seguro da precisão daquela profecia, Rosa adiou a cerimônia de posse na Academia Brasileira de Letras (ABL) por vários anos.

— A profecia foi um calvário para ele — diz José Luís. — Não sei quem fez, talvez uma cigana lendo sua mão. Isso influiu bastante, porque ele era muito crente. Acreditava no imponderável, nas coisas divinas, nas profecias.

Após esse episódio, lembra o irmão, o tempo para Rosa encurtou. Ele pressentia que o fim estava próximo e se angustiava com a possibilidade de não terminar tudo o que estava escrevendo. Por isso, trabalhava horas a fio todos os dias, religiosamente. Por fim, a profecia se cumpriu: três dias após a posse na ABL, Rosa morreu.

— A última vez em que fui visitá-lo no Itamaraty, ao entrar em seu gabinete o vi no meio da sala, com um terço na mão, rezando — afirma o irmão. — Percebi sua angústia e compreendi que deveria alegrá-lo. Então me dirigi a ele e o abracei e conversei coisas amenas para reintegrá-lo à sua habitual alegria.

Mas nem todas as profecias que atravessaram a vida de Rosa tinham um teor trágico. Quando estava no início do ofício de escritor, enviou com pseudônimo, os contos de Sagarana a um concurso no qual ficou em segundo lugar. No entanto, Graciliano Ramos, que era membro do júri, ficou impressionado com as histórias e previu que aquele escritor estremeceria a literatura brasileira.

Agnes Guimarães Rosa do Amaral, uma de suas filhas, lembra da fase inicial do namoro de Rosa e sua mãe, Ligia Cabral Pena, a dona Lili, primeira mulher do escritor:

— Ele fazia medicina e conheceu minha mãe, que era estudante secundarista. Todos os dias ia à Escola Normal na hora da saída e, ao encontrar com ela, dizia: “Que coincidência”. E a cena se repetiu tanto a ponto de as colegas de minha mãe afirmarem ao avistá-lo se aproximando: “A coincidência já chegou”.

Agnes diz que a emoção que o personagem Miguilim sentiu ao usar óculos pela primeira vez aconteceu de fato com seu pai, cujos primeiros óculos foram comprados de um mascate, quando ele era menino. Talvez seja o milagre de nitidez daquela experiência que tenha levado Rosa a expressar o desejo de ser enterrado com seus óculos.”

Sexta-feira, Novembro 17, 2006

Vai na frente, que eu já vou indo

Como diria o Geraldinho Carneiro, se isto fosse uma história policial, o bar do Pinhel seria a cena do crime, mas como se trata de uma história de amor, digamos que lá foi onde tudo começou. A primeira cerveja com uma pessoa que vai, a partir daquele momento, fazer parte da sua vida, é algo que a gente não esquece. Minhas primeiras palavras trocadas com Soraya foram ali, regadas por uma cerveja bem gelada, num botequim perto da Praça XV, sobrevivente do tempo do Império do Brasil.

Uma das características que qualquer botequim que se preze deve ter obrigatoriamente é fornecer o ambiente propício para uma boa conversa. Dois dedos de prosa, bater papo, jogar conversa fora, trocar umas idéias... tenha o nome que tiver, esse tipo de encontro é muitas vezes desequilibrado. Uns, mais articulados ou mais aguerridos, falam mais que os outros, afirmam verdades irrefutáveis, batem na mesa e o escambau. Outros são mais histriônicos, gozadores, bufões, gracejadores, jocosos, bravateiros. Outros calam e se expressam monossilabicamente. E por aí vai.

O que me faz gosto de ir ao bar com Soraya é que nossa conversa é de um tipo raro. É uma conversa espiralada, que vai num crescendo, alimentada por um e por outro, como um duo virtuoso, em que cada um contribui com sua nota, mas nota pertinente, exata, precisa. E que, esse tipo de encontro, quase sempre apresenta um caráter estratosférico. Também conversava assim com meu mano Manduka. Quem olhava de outra mesa, ficava tonto, sem entender a rapidez daquele fluir. Uma tarde, no Caneco Gelado do Mário, em Niterói, eu, , Manduka e Valéria nos juntamos, diante de uns camarõeszinhos ao alho e óleo e dúzias de cervejas mofadas, para cruzarmos vários céus. Foi um dia memorável.

Numa das primeiras vezes que saímos, eu e fizemos um pequeno tour pelo Morro da Conceição, ali entre Saúde e Gamboa. Tomamos uma cerveja no boteco da Pedra do Sal, reduto de João da Baiana e Pixinguinha. Passamos pela rua do Jogo da Bola, Bar do seu Odilo, com os coroas jogando dominó. Por ali, um misterioso cemitério de escravos novos, a presença negra por toda parte, forçando à memória histórias que a História mantém camufladas. Depois seguimos pela rua do Livramento ao saudoso Penafiel da Gamboa. Sua chopeira singular, única, em formato de barril, e uma serpentina com o diâmetro um ou dois milímetros menor, tirando um chope cremoso inigualável.

Estávamos lá trocando idéias com seu Euzébio, o dono, que dizia que o bar estava às moscas por causa do medo provocado pela violência no bairro, quando chega um carro, com dois casais do Rio Grande do Sul, se não me falha a memória. Eles estavam de férias no Rio e resolveram experimentar as sugestões do Rio Botequim (edição de 99). Foi uma festa, quando descobriram que eu tinha escrito o livro.


No Chalé, no feriadão de 15 de Novembro: papo sideral e chope gelado (foto de Soraya)

Mas, voltando aos papos com a Sô, uns oito anos atrás, a caminho do Candogueiro com Soraya e outros amigos, paramos num botequim pequeno, que ela queria me apresentar, chamado Chalé. Boteco simples, de esquina, perto dos cinemas da UFF, em Icaraí. Gostei de cara. Chope razoável, petiscos clássicos, como salaminho e provolone mergulhados no limão, garçom atento ao fluxo etílico das mesas, e uma freguesia composta por uns coroas engraçados, naquela onda de um gozar o outro e coisa e tal. Fiquei fã e vou lá sempre que posso. Sempre com ela. Mas, como Niterói é uma cidade virtuosa em botequins, acabo demorando para aparecer.

Na última quarta-feira, aproveitando a folga do feriado, fomos lá para mais uma sessão de conversas siderais em mesa de bar. Um de nossos esportes preferidos, como já deu pra notar. Antes, uma caminhada pelo calçadão para aproveitar a luz cristalina pós-chuva e ver o dia morrer por trás dos morros do Rio, de frente para a Baía de Guanabara. O Rio é mesmo uma cidade abençoada.

Mas voltando ao Chalé, foi boa a sensação de ver a casa no mesmo clima de sempre. A coroada lá, assistindo ao jogo do Brasil. E tudo o mais rigorosamente igual. O banheiro do Chalé tem gelo no mictório e um estrado de madeira, solução lusitana para salvar os sapatos dos clientes do charco de urina que enlameia o chão. Para se chegar até lá, é preciso passar por um corredor tão estreito, que não dá para mudar de idéia e voltar no meio do caminho. É preciso ir até o fim e depois voltar. O acesso ao banheiro de certos botecos, aliás, mereceria um livro. No Opus, por exemplo, é virtualmente impossível: uma escada em ângulo vertical tão agudo, que só mesmo bêbado pra conseguir subir.

O Chalé, como qualquer boteco, também tem seus personagens, inclusive uma louca que ficava na calçada falando sozinha em frente ao bar (não a vi dessa vez). Lembro também de um sujeito com umas das maiores panças que já vi. E vejam, meus amigos, eu posso falar porque também estou pra lá de Marrakesh no quesito obesidade. Mas esse cara era de fato um fenômeno. Ficava em pé, afastado do balcão pela barriga. Quando se movia, era guiado por ela, que tangia os seus passos, especialmente depois de horas enchendo a lata. Esculhambava em sonoros esporros os garçons e balconistas, um pouco como o Amaral, lá do Bar do Serafim, que ergue o dedo paraa turma atrás do balcão e manda o seu bordão:

— Canalhas!

O Amaral, aliás, se parece com um personagem de García Márquez. Uma espécie de general, com barba branca, que escapou ao fuzilamento por um triz e hoje vive de memória debruçado sobre o balcão da esquina.

Mas, pra concluir esse relato sem pé nem cabeça, conversando com Soraya, muitas idéias brotam, mas ninguém tem tempo de anotar e as coisas se perdem no dia seguinte. O título dessa crônica é um exemplo. Por trás dele há uma história que já não me lembro mais, mas da qual rimos de rolar. Mas é assim mesmo o nosso convívio no bar.


Mais uma da turma do Rio Botequim, com Baiano, Moa e o saudoso Paulinho, dono do Bar

Terça-feira, Novembro 14, 2006

Somos todos iguais nesta noite

Marcelo Moutinho, meu amigo e companheiro de letras e boemia, lançou ontem seu último livro, Somos todos iguais esta noite. Como me torno cada vez mais um péssimo jornalista, divulgo o lançamento aqui, fora do prazo. Mas tudo bem, fica a dica para que procurem um exemplar nas boas casas do ramo. Moutinho é um escritor de talento refinado e sensibilidade aguda. Pedi a ele que faça, se gostar dos originais, o prefácio das Mariposas.



Marcelo, mano velho, vamos bebemorar o lançamento no fim de semana?

Sexta-feira, Novembro 10, 2006

Meu bar é o botequim


O Bar Lagoa, uma das casas mais tradicionais da cidade, fechando

Numa das primeiras incursões que o Zé Octávio fez, como pesquisador do Rio Botequim, ao pé-sujo do seu Jóia, acabou enxotado por ele, que, aos berros, dizia:

— Meu bar não é um botequim!

Corria o ano de 1997. E poucos meses antes desta cena, digamos, dramática, eu havia sido contratado pela turma da editora Casa da Palavra e da firma de pesquisa cultural Memória Brasil para coordenar uma equipe de quatro ou cinco pesquisadores e escrever as crônicas dos botequins selecionados numa grande pesquisa por toda a cidade. A iniciativa era do então prefeito Luiz Paulo Conde e estava inserida dentro de um projeto maior, que incluía ainda guias de sebos, igrejas e estilos arquitetônicos da cidade. Enfim, coisas de arquiteto, que quando não está quebrando a cidade e mudando suas feições, resolve mergulhar nostalgicamente em projetos de preservação de patrimônios subjetivos.


Baiano experimenta o joelho do Bar do Paulinho, em Higienópolis

Na época, trabalhava no jornal O Dia, onde Jaguar, um dos boêmios mais conhecidos e respeitados da cidade, tinha uma coluna semanal. Ao saber do projeto de um guia de botequins, escreveu uma crônica metendo o pau na iniciativa. Alguns meses depois, logo após a publicação do livrinho, ele escreveu outra, que abria dizendo algo como: “fui criticar sem ler, acabei mordendo a língua”. Não me lembro exatamente dos detalhes, mas era um pedido de desculpa e, embora criticasse aqui e ali uma ou outra falha, batia o martelo: “o trabalho é sério”.


Casal no balcão da Adega Pérola, em Copacabana: chope e petiscos

De lá pra cá, foram quase dez anos, várias edições, com a relação dos 50 bares escolhidos pela equipe de pesquisadores e editores; as eleições diretas; vários capítulos especiais, como o dos bares de Santo Cristo, Gamboa e Saúde; além do registro de bares que, hoje, infelizmente desapareceram, como o Belmonte original, o Garoto das Flores, o Pinhel (onde bebi cerveja com Soraya pela primeira vez), Arco Teles, Casa da Cachaça, entre outros.

Ainda no Dia, fiz a primeira coluna exclusiva sobre botequins dos jornais cariocas e, quando fui para o Jornal do Brasil, levei a idéia pra lá. Mais tarde, no Globo, criaram a coluna Pé-Sujo, assinada por Juarez Becosa, pseudônimo do Paulo Mussoi. Fora isso, houve centenas de matérias sobre comportamento, abordando do chope ao garçom, gastronomia, perfis de celebridades da boemia, palavras de boêmios, como Moacyr Luz, Baiano, a turma do Pasquim, Aldir Blanc, Martinho da Vila, donos de botecos, como Alfredinho do Bip-Bip; Juca, do Serafim; o finado Paulinho, do Bar do Paulinho; e por aí vai.


Marceu Vieira em pé, na Codorna do Feio, no Méier: codorna na brasa e cerveja

O sucesso de mídia detonou todo um processo incontrolável. De repente, botequim, que era um reduto exclusivo de boêmios, virou moda, passou a ser freqüentado por pessoas que antes torciam o nariz para essas casas comerciais. Ganhou adjetivos até impensáveis, como pé-limpo; surgiram especialistas, críticos e a palavra botequim, que antes era pejorativa (a ponto do português se sentir ofendido com a insinuação de que seu bar era um botequim), passou a ser valorizada. Empresários da noite perceberam o filão que se abria e investiram no marketing botequim, como marca de autenticidade para seus bares moderninhos. O botequim virou grife e passou a circular em colunas sociais, como a do Ancelmo Góis e Joaquim Ferreira dos Santos.

O guia ganhou vida própria, tornando-se independente da prefeitura, e suas reuniões de trabalho (que juntava editores, pesquisadores e redatores) eram sempre um quebra-pau na hora de escolher os 50 selecionados para entrar no guia. Os pesquisadores percorriam cerca de 200 estabelecimentos e se apegavam a um ou outro. Na hora de cortar era um dilema. Tinha gente que ficava magoada com o corte ou a inclusão de determinado bar. Havia pressão da prefeitura, pressão de donos de botequins, pressão de amigos, pressão de cervejarias etc. Também havia pressão — contra a qual tentávamos resistir — para incluir bares moderninhos. Não havíamos decidido ainda que posição tomar em relação a este fenômeno. O caso do Belmonte foi exemplar. Me lembro da interferência de Moacyr Luz e Baiano, quando souberam que estávamos querendo excluir o Belmonte do guia, depois da transformação feita pelo Antonio Rodrigues. Eles defenderam com unhas e dentes o bar, afirmando que já era hora do botequim ter banheiro limpo.


Auto-retrato no Bar do Serafim, em Larangeiras: papo furado e lulas alentejanas

Em meio a esse processo, fiz minha dissertação sobre um boteco de Botafogo. Durante três anos freqüentei diariamente a Adeguinha para fazer minha etnografia. Levar o botequim para a academia, ou melhor, levar a academia ao botequim, me possibilitou refletir sobre esse tema tão apaixonante usando a antropologia, o que me permitiu ver inclusive minha tendência a fetichizar certas idéias, como a existência de um pé-sujo puro, o verdadeiro “butiquim”, com “u”, como usam os entendidos ao referirem ao “autêntico” pé-sujo.

O Aldir Blanc disse: “botequim é papo”. Concordo com ele e acho, na minha modestíssima opinião, que isso resume tudo. Botequim não é apenas o cenário (balcão de mármore, geladeira de madeira, mesinhas com tampo de mármore, sobrado na Zona Norte, santo protetor na parede, chopeira velha, parede de ladrilhos etc.); não é apenas sua culinária; nem seu garçom ou o dono português e a cozinheira cearense; o cliente que mora na esquina, freqüenta diariamente, pendura a conta e passa, como diz Jaguar, mais tempo com o garçom do que com a mulher. O botequim é a relação dinâmica que engloba todos esses elementos. O todo é maior que a soma das partes.


Bar da dona Maria, na Muda: onde o Moacyr mantém uma relação de amor e ódio

E mesmo esses elementos de autenticidade, para minha contrariedade purista, hoje são invadidos e modificados por outros valores, muitos deles estimulados pela mídia. O banheiro limpo do Moacyr é um exemplo. Outros são a presença feminina cada vez maior, a ênfase na qualidade do serviço, a “modernização” do espaço etc e tal. A questão é: a relação boêmia só pode ocorrer num cenário de pé-sujo tradiconal? Será ela menos autêntica se rolar no Belmonte? Talvez a resposta esteja na assiduidade da freguesia e na relação de proximidade com a rua e o bairro. Um bar de forte rodízio, botequim de passagem, certamente não terá os mesmo laços que um botequim de proximidade, onde se pendura a conta e se estabelece maior intimidade com o dono e os garçons. Mas isso não significa que não haja algum tipo de laço nos bares de passagem. Nova Capela, Bar Brasil e Cosmopolita são bons exemplos.

Diante da invasão incontrolável e incontornável, porque afinal tudo se transforma na sociedade, que a mídia fez sobre o botequim, é compreensível que algumas pessoas se sintam incomodadas e armem trincheiras em nome da legitimidade do “butiquim”. Afinal, com o botequim em alta como “tema” de interesse jornalístico, a mídia empurra todo tipo de matéria (muitas delas feitas por pessoas que nem mesmo gostam desse tipo de boemia) e cria novas categorias, como boteco-fashion, pé-sujo light, pé-limpo e o escambau. Por outro lado, quando se ataca esses modismos, muitas vezes acaba-se, no outro extremo, estereotipando o botequim, como algo puro, congelado no tempo e ameaçado de extinção.

Se o Aldir está certo, o botequim é papo. E papo é relação humana, troca de idéias etc. Por isso, o botequim pode até se transformar, mas nunca vai acabar. Pois qualquer cidade do mundo precisa de um lugar para jogar conversa fora. Ao contrário do que alguns pensam, o Rio Botequim e a cadeia de fait divers que ele detenou não são uma ameaça ao "butiquim". A onda moralista contra a boemia e os estereótipos alienantes são bem mais nocivos.


Aurora, em Botafogo: lulas com arroz e brócolis e hoje o chope mais barato da cidade

O novo Rio Botequim vem aí. E novo mesmo. Dessa vez com outra equipe, comandada pelo Guilherme Studart, a quem não conheço, mas dizem que é um apaixonado por comida de boteco. E o guia este ano é uma edição especial sobre comida. Me pediram e fiz a orelha do livro, tentando pensar num balanço desses quase dez anos. Vi os originais e achei bonito. O Guilherme conta a história dos petiscos e pratos, põe a receita e dá a dica dos botecos onde podem ser consumidos.

Com isso o guia segue o seu caminho com outras pessoas e focado em tópicos específicos. Gosto de pensar que minha contribuição foi a de desbravar um campo, onde o boteco era visto negativamente, como o lugar do desvio do homem virtuoso. Situado entre o trabalho e o lar, oferecendo o ócio, o alcoolismo e a malandragem. Gosto de pensar, do alto da minha presunção, que, depois do Rio Botequim, a sociedade viu que essas casas também são o lugar onde o operariado, o pobre, o cidadão comum constrói uma noção muito especial de cidadania, com seus pares, na jocosidade, nas bravatas, no pendura, sem chefe, sem patrão, sem patroa.


Juninho no comando da Adeguinha, em Botafogo: três anos de pesquisa diária

Em alguns botequins vi de forma nítida esse processo simultaneamente de sociabilidade e socialização: no bar do falecido Paulinho, em Higienópolis, onde se come sopa de galo, ova de galinha, costela assada no latão. No bar do seu Manoel, no Maracanã, onde tem a Confraria do Bode Cheiroso. No Bar da Amendoeira (Maria da Graça) e no Adonis (Benfica), com seus excelentes chopes. Na Paulistinha, no Centro. Os sanduíches do Opus, no Centro, e seu chope cremoso. O bolinho de bacalhau do Sassaruê, em Botafogo. O samba do Bip e a bela figura do Alfredinho. O ambiente do Stephanio’s, na Tijuca. Os petiscos da Adega Pérola, em Copa. E tantos outros.

Garçons que deixaram saudade, como o Bengala, do Vermelhinho (fizemos uma campanha para ele, quando resolveu se candidatar a vereador), o Lima, do Aurora, o Sorriso, da Adeguinha; e outros que continuam na ativa, como o seu Costa e o Vieira, do Lamas, o Edílson, do Jobi, e segue a lista.

Esse post, que tem um tom de despedida, é dedicado à turma pioneira que fez o Rio Botequim: Zé Octávio, Custódio Coimbra, Marceu Vieira, Alexandre Medeiros, Soraya Simões, Flavio Silveira, Gustavo Gomes, Julio Levy, Henrique Costa Lima, Cristina Chacel, Marcelo Lins, Bruno Veiga, Antonia Pellegrino, Tim Lopes, Sergio Lutz, Tomás Ribas e Fabio d’Arrochella.


A ex-turma do Rio Botequim em foto de Custódio Coimbra: (da esquerda para a direita) Martha, Laura (editoras), Zé Octávio, Gustavo, Flavinho, Julico, Irriqui, Soraya e eu

Sábado, Novembro 04, 2006

Esquinas 2



Mesmo nesses momentos, em que o gozo anda vindo tangido por surtos de saudade, a inexistência de quase tudo aquilo que se projetara é, paradoxalmente, a prova concreta do vivido. Como pode tanta ausência me assaltar assim, como coisa plena? Quase uma nuvem de granito. Às vezes, meu amor, ela surge na sua aparência física, com curvas graciosas, castanho olhar, dias de felicidade e outros mimos da memória. Em que esquina mesmo nos separamos? Não importa. O horizonte do infinito é pequeno para nós. Certamente nos reencontraremos. E afinal, mais do que tudo, o presságio do fim tão próximo ao peito faz ressurgir a velha pulsão de vida. Mesmo que seja breve, sua força ainda é aquela da adolescência, quando, iluminado, farejava o mundo como um lobo e descobria suas entranhas camufladas. Nesse cruzar de tempos distintos e idades várias, não mais me reconheço. Perco a medida de mim, digo tolices, faço coisas fora de propósito, como me enturmar com gerações de outros séculos. Penetra de festas exclusivas, às vezes me vejo enxotado por seguranças, jogado de volta à sarjeta. A morte então volta a rondar as idéias, e se põe à espreita no bairro, nos quilos a mais pesando o coração, no raio inesperado que às vezes desce do céu sobre nossas pobres cabeças, em meio à chuva torrencial dos dias. Minha percepção é o que me salva. Feita de fantasia e paixão, e sobretudo a lembrança do menino que viu a vida com assombro e, por isso, agarrou-se a ela num abraço de todos os ossos.